a Beatriz (presente)a Fernanda (presente e passado)
e a todas a pessoas que gosto do presente e passado.
Certa vez, Clarice Lispector escreveu: “Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto?”.
Com base nesta questão e em acontecimentos de minha própria vida, cheguei a uma teoria de que tudo o que vem a faltar – e nesse caso, o que falta é o gostar – é uma forma de arrependimento. Não gostar por não gostar não existe: há sempre algum motivo que leva à ausência de afeto, à magoa e ao rancor. Porém, para cada um de nós, o motivo só tem importância quando vem do outro, mas será que alguma vez alguém já se pegou perguntando a si mesmo: “e os motivos que eu mesmo dei?”; será que alguém, antes de condenar alguém por um motivo dado, já procurou em si mesmo motivos que possa ter dado para que o outro lhe desse também motivo? É muito difícil, por isso, na maior parte das vezes, o arrependimento por não gostar é inconsciente. Afinal, quem se arrepende por não gostar de alguém e continua a não gostar? O que não altera o fato de que o arrependimento existe e acaba, cedo ou tarde, gerando ainda mais arrependimento – e que virá de forma consciente. Pode-se, na vida, muitas vezes estar inconsciente do arrependimento, mas não vive aquele que não se arrepende.
Somos imperfeitos, humanos, assim fomos criados, e dia a dia tentamos fazer da nossa imperfeição uma forma de arte para não sentirmo-nos tão imperfeitos diante de nossa consciência. Mas viver é estar pronto para se arrepender a qualquer instante e quantas vezes forem necessárias: se arrepender do que fez e do que não fez, dos motivos que deu ou deixou de dar, se arrepender até mesmo dos arrependimentos que teve ou deixou de ter. Uma grande nobreza no ser humano, que define muito de seu caráter, é o arrependimento.
E ainda com base no trecho de Clarice, propus a mim mesmo uma nova pergunta: Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem gosto, mas não deveria gostar – como se chama o que sinto?
É o que tem acontecido comigo com freqüência: gostar e não parar de gostar, mesmo cheio de motivos para não gostar, às vezes motivos até para odiar. E quando alguma dessas pessoas, que eu gosto e deveria não gostar, me agrada de alguma forma, é como se eu ouvisse, lá no fundo, sempre a mesma vozinha dizendo alguma coisa que eu não consigo entender. Talvez diga para que eu deixe de ser tão bom ou tão idiota... isso aperta no peito e eu sei que é uma forma de arrependimento o que vem nesses momentos.
Talvez o que eu faça é me culpar demais pelas atitudes erradas dos outros para comigo, mas o fato é que já não sei mais deixar de gostar e assim punir a quem me magoou com meu rancor. Não considero isso certo, são resquícios do que ficou de uma época em que eu, de forma ingênua, tentava ser perfeito. Hoje, mais do que nunca, sei que tentar ser perfeito é cometer o maior dos enganos, já que como humano, para isso não nasci. E uma de minhas imperfeições é esta: gostar de quem não deveria mais gostar, tendo a capacidade de sempre perdoar. E é também um de meus arrependimentos. Arrependimento que tenho e não temo expor.
A mensagem que gostaria de passar para quem lê é para que não deixe de se arrepender nunca, pois é o arrependimento que faz a pessoa e seu caráter. Só que é preciso estar certo de que um arrependimento jamais muda o passado, porém, abre as portas para mudar o futuro (que um dia também será passado). O arrepender-se é saber procurar um melhor caminho, é escolhê-lo. E é o que faço: arrependo-me de ter, no passado, permitido que certas pessoas me dessem motivos para não mais gostar delas no presente e procuro não deixar nascer motivos para que um dia eu deixe de gostar de quem gosto agora.