terça-feira, 6 de maio de 2008

Declaração

#nota: Este poema foi escrito para uma pessoa cujo nome eu já não posso falar.


Quero amar o breve instante em que teus olhos piscam
que é quando o completo o mínimo e o eterno
se tornam uma só coisa
Quero dizer que te amo sem dizer que te amo
e afundar-me em teus braços
em devaneios
Quero naufragar no oceano de teus lábios
morrer no breve instante em que não me olhas
para renascer das chamas
dentro de ti

Permita-me que eu nada diga
quero amar até mesmo seu silencio
assim como amo seus sorrisos olhares gemidos
Permita que eu te ame histericamente
como me amas
e permita a ti mesma amar-me quando
não me amas
Permita que eu ame a morte que nos mata
e nos faz viver mais
intensamente
Quero ter-te no completo
no mínimo
e no eterno
Quero amar o breve instante em que teus olhos piscam.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Fio da Vida (Autodescrição poética)


Perdi no poema o fio da meada
num lugar-comum me arrebentei
desconheci o concreto fiz-me abstrato
pintei versos que não rimavam
com suor e água fria
despertei onírico e choveram rimas
que eclipsaram o léxico da lua
numa noite que teci no céu
do meu quarto

Beleza & Arte


à Paulla Oliveira
e a Pablo Picasso
Minto quando digo que acredito
na arte como coisa verdadeira
A arte é o gozo dos infelizes
Não é mais do que mentira ou enfeite

Porém já vi quadros mais bem pintados
Ouvi sinfonias mais belas que o viver
Em esculturas a existência sorria
Na dança presenciei felicidade

Como poeta me cobri de enlevos
cultivando versos de esplendida utopia
Persuadido pela beleza que não era minha
tornei mais viva a ilusão de quem a tinha

Quem dera fosse feita de verdade
e que com ela eu deixasse de sonhar
Sonho, vivo e minto
sabendo que é na arte que se vê melhor a vida

Vida que a arte não copia
mas engana encanta encobre
Iluminados são os que crêem na belo
e têm a vida como engaste da arte

domingo, 9 de março de 2008

Arrependimento

a Beatriz (presente)
a Fernanda (presente e passado)
e a todas a pessoas que gosto do presente e passado.

Certa vez, Clarice Lispector escreveu: “Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto – como se chama o que sinto?”.

Com base nesta questão e em acontecimentos de minha própria vida, cheguei a uma teoria de que tudo o que vem a faltar – e nesse caso, o que falta é o gostar – é uma forma de arrependimento. Não gostar por não gostar não existe: há sempre algum motivo que leva à ausência de afeto, à magoa e ao rancor. Porém, para cada um de nós, o motivo só tem importância quando vem do outro, mas será que alguma vez alguém já se pegou perguntando a si mesmo: “e os motivos que eu mesmo dei?”; será que alguém, antes de condenar alguém por um motivo dado, já procurou em si mesmo motivos que possa ter dado para que o outro lhe desse também motivo? É muito difícil, por isso, na maior parte das vezes, o arrependimento por não gostar é inconsciente. Afinal, quem se arrepende por não gostar de alguém e continua a não gostar? O que não altera o fato de que o arrependimento existe e acaba, cedo ou tarde, gerando ainda mais arrependimento – e que virá de forma consciente. Pode-se, na vida, muitas vezes estar inconsciente do arrependimento, mas não vive aquele que não se arrepende.

Somos imperfeitos, humanos, assim fomos criados, e dia a dia tentamos fazer da nossa imperfeição uma forma de arte para não sentirmo-nos tão imperfeitos diante de nossa consciência. Mas viver é estar pronto para se arrepender a qualquer instante e quantas vezes forem necessárias: se arrepender do que fez e do que não fez, dos motivos que deu ou deixou de dar, se arrepender até mesmo dos arrependimentos que teve ou deixou de ter. Uma grande nobreza no ser humano, que define muito de seu caráter, é o arrependimento.

E ainda com base no trecho de Clarice, propus a mim mesmo uma nova pergunta: Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem gosto, mas não deveria gostar – como se chama o que sinto?

É o que tem acontecido comigo com freqüência: gostar e não parar de gostar, mesmo cheio de motivos para não gostar, às vezes motivos até para odiar. E quando alguma dessas pessoas, que eu gosto e deveria não gostar, me agrada de alguma forma, é como se eu ouvisse, lá no fundo, sempre a mesma vozinha dizendo alguma coisa que eu não consigo entender. Talvez diga para que eu deixe de ser tão bom ou tão idiota... isso aperta no peito e eu sei que é uma forma de arrependimento o que vem nesses momentos.

Talvez o que eu faça é me culpar demais pelas atitudes erradas dos outros para comigo, mas o fato é que já não sei mais deixar de gostar e assim punir a quem me magoou com meu rancor. Não considero isso certo, são resquícios do que ficou de uma época em que eu, de forma ingênua, tentava ser perfeito. Hoje, mais do que nunca, sei que tentar ser perfeito é cometer o maior dos enganos, já que como humano, para isso não nasci. E uma de minhas imperfeições é esta: gostar de quem não deveria mais gostar, tendo a capacidade de sempre perdoar. E é também um de meus arrependimentos. Arrependimento que tenho e não temo expor.

A mensagem que gostaria de passar para quem lê é para que não deixe de se arrepender nunca, pois é o arrependimento que faz a pessoa e seu caráter. Só que é preciso estar certo de que um arrependimento jamais muda o passado, porém, abre as portas para mudar o futuro (que um dia também será passado). O arrepender-se é saber procurar um melhor caminho, é escolhê-lo. E é o que faço: arrependo-me de ter, no passado, permitido que certas pessoas me dessem motivos para não mais gostar delas no presente e procuro não deixar nascer motivos para que um dia eu deixe de gostar de quem gosto agora.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Insônia




Cigarros de má qualidade. Nenhuma bebida, nenhuma garota. A noite é um quarto alugado, sujo e abafado. A noite me observa fria.

É sufocante permanecer calado: o tempo corre, minhas horas são meus anos, ouvindo os barulhos da insônia. A cidade inteira dorme mas não há paz: a paz é muito cara para quem vive de incerteza. Um carro sobrevivente tenta se arrastar lá fora, a rua é o cansaço. Eu não vejo o carro, mas ouço seu ronco a ecoar: não consigo dormir.

Nenhum filme na TV – a TV é inútil e meus livros estão enjoados de serem relidos. Meus olhos contemplam a vastidão do vazio e o tédio, um ponto na parede, talvez uma mosca, talvez só mais um ponto sem importância.

Do relógio apenas um estalar constante, um tique-taque e a consciência do não-eterno que eu já não sei se me perturba ou me faz feliz. Me assombra, afinal, o que é felicidade?
Já é madrugada. O tempo todo é madrugada e o sono não vem: existir é estar sempre à espera e não se sabe o que se espera apenas se sabe que é preciso esperar e esperar e esperar... Meu corpo está suado, meus lençóis e minha cama suados, mas este suor sem corpo é desperdício de vida, é como olhar o mar em uma praia e não se deixar molhar pelas ondas, é viver sem existir ou viver: subsistir numa subvida.

Falta alguma coisa, sempre falta alguma coisa como se tudo fosse feito do incompleto – do meu quebra-cabeça falta uma peça, no meu álbum de figurinhas falta uma figurinha e nem é a mais rara, mas eu não encontro: tantas figurinhas repetidas e nada. E o sono não vem. A porra do sono me odeia, porém seria tão bom me entregar a ele e esquecer. Sonhar e crer que o sonho é a verdade, mas sei que não é: a verdade não existe e eu continuo sem pregar os olhos.
O telefone poderia ser minha salvação. Mas falta a coragem e a minha insanidade é falha. Vontade de ligar para os amigos e acordar todo mundo sem motivo e rir como um palhaço idiota e sarcástico. Estou com vontade de dar um presente a alguém e quero dar uma estrela, a mais bonita. Difícil é encontrar alguém que dê valor a uma estrela, ainda mais uma hora dessas, mas seria meu presente mais sincero. Vontade de acordar uma amiga em especial apenas para dizer “eu gosto de você, já percebeu isso?” e convidá-la para ir até a praia comigo molhar os pés n’água e contar as estrelas que ainda restam no céu. É preciso. Mas é madrugada e tenho medo de ser assaltado – há tantos loucos lá fora, todos os lobos famintos que nunca tiveram nada: poderiam roubar meu dinheiro, meu celular, poderiam roubar minha alma que não vale nada, mas é a única que tenho. Não. É melhor não sair a esta hora.

Vontade de ter mais vontade de fazer o que tenho vontade e não hesitar tanto como estou hesitando agora. Ando cheio de vontades e é torturante.
As paredes ao meu redor parecem cada vez mais próximas. Eu sei que elas estão tentando tocar meu corpo e me esmagar com uma claustrofobia impaciente, mas não vão conseguir porque há em uma delas uma janela e nesses momentos, mesmo sem ter asas, eu sei voar.
Gostaria que esse espelho quebrado na parede ao meu lado me avisasse quando eu estivesse às margens da loucura, mas o espelho também é inútil e só faz imitar meus gestos: não é uma boa companhia.

Estou com sérios problemas. É solidão. Carência, acho. E solidão e carência me causam repulsa. Queria poder falar sem parar sem precisar falar comigo mesmo: sou um cara legal, mas já estou falando comigo mesmo há quase vinte e um anos. Isso cansa. Estou enjoado.
Este mundo é tão estranho, afinal, quando é que vou ser respeitado pelo que sou e não pelo que finjo ser? Quando é que vou poder usar meus óculos escuros à noite sem que a escuridão ou as pessoas zombem do meu mau gosto? É tudo complicado demais. São quatro paredes e não há como escapar sem sofrer danos. O que resta é ser enquadrado, porque na vida tudo é quadrado e quando se ama o que é errado, você se torna um errado.

Talvez eu tenha errado. Talvez eu seja um errado. Acho que sonhei demais e meus sonhos esgotaram, por isso não sonho mais. Talvez eu seja até um sonho na cabeça de alguma garota que eu não conheço, ou talvez conheça e deveria telefonar para ela e acordá-la e dizer que não sou só sonho. Mas eu não posso. É tarde demais...

Ouço os primeiros pássaros cantarem lá fora como cantam nos sonhos mais bonitos e o sono me chama. Há claridade vindo de algum lugar – é de uma estrela, é amarela e é quente. As outras estrelas foram embora. A lua apagou.

Bocejo, amanhece. Anoiteço.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Rio de Janeiro em 5 Poemas


**********UMA NOITE (no Rio)**********

Os olhos continham o relâmpago.
A noite caia dentro do ônibus eu era a tempestade
Árvores em chamas ardiam sobrava apenas a cidade
E o mar estava tão seco
as ondas como fantasmas
e meus desgostos
e meus sonhos o vento trazia
e levava.

Minha lágrima derradeira escorria pela janela do ônibus
o Rio de Janeiro continuava a fluir
mesmo não sendo janeiro mesmo não sendo mais rio
as ruas pareciam as mesmas
só eu não era mais o mesmo
só eu não estaria mais ali.

Os lábios do céu beijavam os lábios do mar
Meus olhos faiscavam um silencio morto
Algo dentro de mim estava perdido
e a cidade agora era minha única musa
Lembro de quando fomos um só...

Os dedos da cidade tocavam meus dedos
os barulhos das ruas avenidas ecoavam dentro do meu peito
os lábios ardiam, o céu desabava, eu chorava.
Eu quero o mar! Eu quero amar!
Mas o mar não estava mais lá
e eu era o desconsolo de uma praia despida
numa noite de sede e abandono.



*****SAUDADE (do Rio)*****

O relógio da igreja
badala badala badala são três horas
outra vez madrugada
... isso não me faz lembrar do Rio
O céu se espreme lá em cima
chove lá fora como choveu
outrora
... isso não me faz lembrar do Rio
Deitado olhando o teto
é pintado de azul mas não é céu
a lâmpada é meu sol
... isso não me faz lembrar do Rio

De que vale tentar reconstruir uma cidade
procurando lembranças que esta outra não tem
sabendo que esta outra é apenas mais outra
e que as palavras que aqui escrevo
são só palavras de um poema
que não vê a cidade
e só sente saudade?

O gosto daquelas tardes de agosto
o fogo na boca, o sol de meu corpo
O Redentor que me ilumina
Garota de Ipanema nas areias de meu sonho despido
sem madrugada sem chuva
Agora são só lembranças que eu não encontro nas cinzas
desta cidade cinza

mas dentro do meu peito as chamas
devoram devoram...



*****CIDADE MARAVILHOSA REVISITADA*****

Como é bom estar mais uma vez junto a ti
mesmo sabendo que não me amas
como sempre te amei
Pensei em ti todos os dias desde que parti
quando mandaste-me embora
negando-me um ultimo beijo
Tu roubaste minha alegria embaixo de um viaduto
mesmo assim por ti mudei meus planos
e vendi meus sonhos
Para poder voltar e captar tua poesia
escrever poemas com teu nome
tatuar minha vida em teu corpo

Quero misturar-me ao teu sangue
correr em tuas veias-avenidas
e ser o engarrafamento de suas tardes
Quero mergulhar no mar de teus olhos
surfar meu destino em suas ondas-olhares
e fazer-te sorrir com o meu sucesso
Quero cicatrizar tuas feridas
e defender seus erros para aqueles que te maldizem
Nenhum deles te conhece nenhum deles te ama

Tornaste meu amor proibido e contigo aprendi a quebrar a lei
Tu és minha realização meu sonho de cidade minha (na)morada

Cidade Maravilhosa tu és minha musa e cansei de sofrer sua distancia
Tu que és de tantos agora serás também um pouco minha
meu coração é carioca

Em tuas ruas caminharei minha vida
em tuas praias contarei estrelas com meus amores
Porque tu és minha maravilhosa estadia
minha maior companhia
Cidade Maravilhosa em teu âmago encenarei
a fábula dos meus dias.




*****CAOS (do Rio de Janeiro)*****

O Rio de Janeiro implora-me esmolas
O Rio de Janeiro me assalta sob um viaduto
O Rio não tem carro na garagem
O Rio não tem garagem o Rio não tem casa
O Rio de Janeiro mora na favela
mas o Rio não samba mais
o Rio não sabe escrever
e nem vai à praia o Rio morre de medo
O Rio é alcoólatra viciado em crack
O Rio foi sozinho à Guerra do Vietnã
levando consigo armas contrabandeadas
Mas o Rio tem saudade da bossa
que já não é mais nova
da liberdade o dos poetas o Rio tem saudade
O Rio sofre, o Rio está à beira da morte
no corredor de um hospital publico sem leitos disponíveis
O Rio encontrou no caminho uma bala perdida
O Rio não tem plano de saúde
O Rio corre com águas rubro-negras.



*****PÃO DE AÇÚCAR (caindo do bondinho)*****

para Beatriz Paz

era uma tarde ensolarada
sobre a Guanabara
onde eu tinha pernas
e longas caminhadas
eu tinha braços
de inúmeros abraços
lábios e dentes sorrisos
olhos que brilhavam
e viam a cidade
eu tinha eu tinha...
mas me faltava asas
faltava-me o chão
e o bondinho partia
eu caia ela sorria
fora quando descobri
que já era feliz
fora quando descobri
que já era.

domingo, 18 de novembro de 2007

Falta do que fazer


Noite inteira sem dormir

Fiz uma festa na qual o unico convidado foi eu mesmo

Bem acompanhado por meu próprio eu a festa bombou

Festa funk baile do morro dentro do meu quarto dentro do meu corpo

Fernanda Abreu garota sangue bom rasgando os falantes até o sol raiar

Os vizinhos reclamaram mas eu não reclamei

Não dormiram não dormi

A festa era minha

e eles com inveja por não terem sido convidados...

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

À Procura de Olhos


dedicado aos olhos que tenho encontrado
Sinto vontade de amar
e arrancar do meu peito
todas essas noites
feitas de silêncio & desejos

Não quero mais namorar as estrelas
a lua cansou dos meus beijos
Estou me divorciando da noite
e deixando nela a minha tristeza

Agora estou em busca de olhos
olhos negros como a noite
na qual amanheço
olhos azuis como o céu
que jamais anoitece
olhos verdes como a mar
que nunca acaba
olhos cor de areia
onde desenho meu coração
ou castanhos olhos
como os meus

Quero apenas um par de olhos
olhos que tenham mais
do que a simples visão das cores
Olhos que saibam sorrir saibam chorar
que amem e sintam saudade
olhos cheios de carinho e perdão
e ocultem atrás da beleza
os encantos e mistérios
de uma mulher

Sinto vontade de amar loucamente
e procuro para minha vida
um par de olhos contentes
dois olhos que brilhem mais
do que as estrelas e a lua
quando mergulharem
no silencioso mar de meus olhos
e encontrarem no fundo de minha alma
um dizer sincero: Eu Te Amo

terça-feira, 30 de outubro de 2007

Noturno (Poema de Natal)


encoberto pela noite
como um mendigo em seus trapos
que treme com o frio
e teme a própria morte
penso nas estrelas que hoje não apareceram
e observo este turvo céu
feito de morte

pela janela do apartamento
a árvore de natal do outro lado
substitui as estrelas ausentes e dá esperanças
mas isso uma hora passa:
quando amanhece o natal acaba
e a árvore vira favela –
a esperança é apenas um capricho

os barulhos da noite não me perturbam –
gosto de ouvir os cães e seus fantasmas nas ruas vazias
só o que me preocupa é o silencio
que grita com voz surda em meus ouvidos todo o tempo
e faz lembrar que sou sozinho
em um quarto que não é meu
fumando cigarros que não me pertencem
esperando pela incerteza de uma vida
que não parece ser minha
sem ter para onde ir
ou voltar

tenho um passado inteiro feito de pecados & castidade
e um coração que é uma arquibancada cheia de anjos mortos
foi necessário cair muitas vezes para ver que acertar na vida
é simplesmente se permitir errar
e como humano agora me permito
mesmo sabendo que amanhã poderei estar do outro lado
transformando minha miséria em esperança
para alguém que me observa
e procura razões para não parar de ouvir a ópera do Amor e da Vida
encoberto pela noite

domingo, 28 de outubro de 2007

Crise Existencial: Reflexões & Lamentos

Este silêncio, tanta dor pregada nessas paredes... entre elas a mim mesmo renuncio como sempre me renunciei neste lugar e apago as chamas da eternidade que criei queimando folhas de jornais diários e contando as estrelas de meus dias no céu de minha vida noturna e estupida.
Ilusão, sonhos que navegam como barcos inundados que apenas levam ao fundo do rio para que eu me afogue na saudade do que nunca realmente tive, naufrago de ilusões foi o que me tornei.
A espera, a distancia que eu venci e tudo para acabar perdido novamente chorando as dores de mil amores partidos e um coração ferido que não quer mais curar, não quer...
Esta chuva sem palavras, meu peito vazio e todas essas desnecessárias lembranças que só fazem me jogar num abismo onde desapareço levando comigo apenas a imensa culpa de existir...
e existir...
e existir...
...ouvindo apenas o eco de minha voz cansada de se lamentar para esse destino amargo que só quer me ver sozinho.
Sinto minha alma deserta como se cada um de meus amores houvesse arrancado um pouco do que havia em mim deixando para minha vida apenas um infinito feito de grãos de areia esquecida atrás de um horizonte distante feito de nada
Solidão que apavora está sempre desperta e não importa para onde eu corra: no fim tudo acaba em vazio e tristeza, é a vida, assim ela é, não há como mudá-la.
Mas se houvesse ao menos alguém que visse além de meus óculos escuros e entendesse o Amor secreto que guardo no fundo, no mais profundo lugar dentro de mim onde ficam minhas esperanças,
se houvesse alguém para secar com um sorriso simples as lágrimas que chovem de meus ocultos olhos tristonhos,
eu me encontraria e reviveria para criar uma eternidade mais bonita e juro que me esqueceria que sou apenas mais um eu sem importância num mundo sem importância cheio de tantos outros eus sem importância que não sabem que eu existo.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Ressurreição


Ultimamente
os dias têm passado lentamente
as noites continuam frias
sob a chuva fria
ou nas rodas de samba
noites sombrias
melancólicas
E a madrugada enlouquece minha alma
que não dorme nunca dorme...

A madrugada está desperta novamente
Uma garota nua dorme em minha cama
ocupando meu espaço
só mais uma igual as outras
Nenhum amor para mim
que só quero amor
que só quero amar
Mais uma madrugada nascida de uma noite
obscena & insensível
Me lembro bem da última vez que brinquei de ser anjo
Acabei seduzido por um pequeno demônio que no final nada levou de mim
Às vezes é fácil brincar de estar apaixonado
Pessoas se fodem todos os dias por causa de falsos amores
e ninguém se importa
para a maioria o amor não é importante
Mas olhando desta janela agora
vendo os barracos iluminados da favela em frente ao arranha-céu
onde moro
pergunto à noite:
Que valor tem o sexo afinal
se não somos feitos só de corpo
se também somos feitos de coração & alma
Já perdi as contas de quantas vezes viram minha luxúria nua
gratuitamente
e se disseram felizes
mas a felicidade não se compra apenas por uma noite
Seja como for ofereço o que me pedem
Se desejam meu corpo dou o meu corpo
E ultimamente elas têm preferido meu corpo
não meu coração
que aos poucos se enche de teias de aranha
Não perco mais tempo contando
Todas as noites são iguais
com todas essas garotas iguais
Eu procuro a diferença loucamente
mas enquanto não encontro
mantenho minha alma desperta
entediada
pela busca da ressurreição de mim.

Cartola

Ouça-me amor
Ouça-me quando cantar os passarinhos

e o sol atrás do morro anunciar um novo dia
Ouça minha voz a ecoar no rastro que deixou o tempo
e relembre que já estive nos sonhos teus

Quando despertar caminhe até a janela
e assista a dança das nuvens no céu
e relembre as vezes que olhavas para mim
e vias seu próprio paraíso
Lembre que só em meus braços
encontravas a segurança contra as tempestades de tua vida

Preste atenção em cada detalhe da beleza a sua frente
se ilumine com o brilho de cada raio de sol
deite teus olhos num colchão de nuvens
e ouça nossos risos nos risos das crianças que brincam a caminho da escola
e relembre que juntos fomos a nobreza maior

E que agora somos apenas as latas de lixo de seus sonhos mesquinhos
Tornaste um anjo de ilusões
e eu com minhas lágrimas vazias tornei-me
as noites de sambas tristes sem saber
quando irei amanhecer

Depois abaixe os olhos querida
e veja a solidão nas esquinas
o esquecimento dos becos do alvorecer
e as cores pobres das favelas e descubra
como sou agora

Nos meus olhos tristonhos
o alvorecer de uma miséria sem volta
e uma incurável saudade que o tempo fez aumentar
desde que partiste e levaste contigo
minha alegria.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Caruso

É a primeira vez que posto um texto que não é de minha autoria aqui, mas esse texto - na verdade a letra traduzida da música "Caruso" - expressa exatamente meu sentimento neste instante e essa também tem sido a música que mais tem me emocionado ultimamente. Então, leiam com atenção essa maravilha de Lucio Dalla e, se possivel, ouçam também a canção com Luciano Pavarotti:

"Aqui onde o mar brilha e sopra forte o vento
Sobre um velho terraço em frente ao Golfo de Sorrento
Um homem abraça uma mulher depois de haver chorado
Depois limpa a voz e recomeça o canto
Eu te amo tanto sabe, mas tanto, tanto, sabe?
É uma corrente agora que faz o sangue queimar nas veias, sabe ?

Viu luzes em alto-mar, lembrou de noites lá na América
Mas eram só lanternas a brilhar, no rastro branco de uma hélice
Sentiu doer a música, se levantou do piano
Mas vendo a luz surgir atrás de uma nuvem
Até a morte lhe pareceu mais doce
Olhou fundo nos olhos da mulher, aqueles olhos verdes como o mar
De repente viu escapar um lágrima e pensou estar à se afogar
Eu te amo tanto sabe, mas tanto, tanto, sabe?
É uma corrente agora que faz o sangue queimar nas veias

Que poder é esse da ópera, onde todo drama é falso
Com um pouco de maquiagem e representação
podemos nos transformar em outro
Mas quando dois olhos te olham assim tão perto e verdadeiros
Te fazem esquecer as palavras, confundem teus pensamentos
Assim, tudo se torna pequeno
Também as noites lá na América
Você vira e vê a sua vida
Como o rastro de uma hélice
Mas, sim, essa vida que se acaba
E ele nem pensou sobre isso
Ou, ao contrário, ele já se sentia feliz
E recomeçou seu canto
Te voglio bene assai
ma tanto tanto bene sai
è una cantena ormai
che sciogliei sangue dint'e vene sai..."

sábado, 22 de setembro de 2007

DESABAFO: TRECHO DE DIÁRIO ou ULTIMO POEMA

De repente queria poder despertar deste pesadelo
e voltar a ser criança
e sorrir
e ver a vida com olhos mais belos,
mas em vez disso vejo tudo negro
e sofro a sina de ser apenas a porra de um Jack Kerouac de merda
que se apaixona facilmente
e se arrebenta com seu coração feito de cacos de vidro
vendo a vida como ela realmente é: infinitamente triste.
Como Kerouac, estou chegando à conclusão
de que a única coisa que está pronta para me aceitar é a morte –
não tenho casa,
não tenho dinheiro,
vivo viajando e não consigo me encontrar em nenhum lugar
pois nenhum lugar tem Amor para mim.
Perdi minha única razão para acreditar que a vida valia a pena
e sequer ganhei um beijo marcante de despedida.
Neste instante, espero apenas que meus olhos se apaguem,
meus ouvidos ensurdeçam,
minha voz se cale
e meu coração – maldito coração – pare de bater inutilmente
e morra em chamas se unindo às cinzas de todos
os meus amores perdidos.
De repente queria simplesmente deixar de existir:
não anseio mais nenhum paraíso ou inferno,
quero apenas que tudo se apague
e o mundo acabe
quando todos os corações sem Amor calarem
e o silencio dominar como se Deus nunca tivesse tido a infeliz idéia de criar o ser humano
e todo o seu reino de desgraça
e solidão.
Por erro do destino nasci diferente de todos,
aprendi a amar como nenhum outro,
mas sempre amei sozinho.
Gostaria que todos guardassem de mim apenas a lembrança do meu sorriso:
é minha imagem mais bela.
O resto: as lágrimas e todas essas páginas cheias de palavras tristes
devem ser esquecidas,
afinal nada disso faz sentido para ninguém.
Preferiria mil vezes ser um tolo feliz que essa merda de poeta melancólico
e sombrio que me tornei.
Mas sou apenas o poeta triste
e como um poeta triste
esmoreço até desaparecer por completo.
A Luxúria Nua está morta,
A Luxúria Nua está morta.

Réquiem Para um Amor

Dói aqui dentro onde te guardo
Onde tudo está despedaçado

Ainda ouço o eco de suas palavras
Seu rosto é agora meu fantasma
E ele está em todos os lugares que meus olhos encontram

A tortura de viver é constante
Meu coração é o cemitério de meus amores
Minha existência é a certeza de que não vale a pena existir

Sonhei e acreditei,
Agora desacredito
Desespero e esmoreço

Pavarotti canta Caruso, eu choro
A dor dele é minha dor
É a dor de todos nós que vivemos

E esperamos pela morte
Somente.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Poema Diante do Espelho

Constantemente tenho pensado nos espelhos
que refletem a nudez da minha mente descrente
Constantemente tenho visto meu próprio rosto
e anos e anos de sujeira e inocência
Rios de cristal do mar turvo de meus olhos
cogumelos de mentira que explodem como bombas atômicas utópicas
e a velha criança órfã renegada
a velha criança que caiu em todas as ciladas do amor constante Constantemente tenho pensado constantemente.
Tenho pensado nas estrelas e nos vaga-lumes
nas latas de lixo e a comida que apodrece sem matar a fome
as ruas estreitas e as casas sem teto e os lares desfeitos
Constantemente tenho me alimentado da minha própria miséria
as moscas e os abutres que voam em torno dos amores
meu vinho barato é engolido com cacos de corações despedaçados
meu coração de cacos de vidro à luz do tempo
eternidade que não passa que não começa
e constantemente me desespera enquanto espero
na lucidez da dor que mata
e anjos apocalípticos riem do meu desconsolo
com asas abertas no paraíso da incredibilidade
Tristezas de alumínio cravadas inoxidavelmente no âmago e minhas culpas
fazem sangrar constantemente meus pensamentos
Tenho pensado constantemente em pensamentos
e relembrado as lembranças que não tive
Nos amigos & amores que deixei morrer inconscientemente
Nos amigos & amores que suicidaram em alvoradas distantes –
Pumes com suas flores de veludo em Portugal
sem tempo para abrir meus olhos nesta noite profunda
Pavarotti está morto e agora não tenho mais música pra me ajudar a chorar
tenho pensado em Pavarotti melancolicamente
Tenho pensado constantemente na Espanha
e no sofrimento dos touros no holocausto das touradas
e no sofrimento do holocausto do Amor & distancia
Tenho pensado constantemente tenho pensado
Tenho gritado tenho chorado constantemente ultimamente
Tenho morrido e tenho matado inevitavelmente
Tenho quebrado minhas promessas negligentemente
porque tenho sido enganado constantemente ultimamente
Têm surgido rugas em torno de meus olhos
Meu sorriso de não sorrir está empoeirado
O coração de amar não cansa e de amar se mata
Vejo em minha frente espelhos quebrados
meu próprio rosto e nada mais
nada do que sonhei ter nada do que necessito
Eu não dormi com a certeza despida em minha cama
jamais acordei com um sorriso e um beijo
a arquibancada dentro de mim permanece vazia
e ninguém quer entrar e quem entra não fica
Sou ponte de concreto sobre um rio sem água
e a felicidade que eu vendo é muito barata
mesmo assim quem deseja compra-la, quem?
Tenho constantemente pensado tenho
no mundo moderno que não me agrada
mundo onde meu desejo não vale nada
onde meu EU TE AMO não vale nada
tenho pensado constantemente em nada
estou cada vez mais obcecado pelo nada.
Nos espelhos tenho visto a estrela solitária perder o brilho
a noite que me fecha cada vez mais escura
o túnel no final de cada luz que encontro
e a velha criança que chora desencantada.
Pensado constantemente tenho pensado
e de pensar já perdi a cabeça
me tornei chato, sufocante...
Tenho pensado e já não durmo mais
a ultima semana foi uma péssima semana
a ultima semana da minha vida inteira foi uma péssima semana
Ultimamente tenho me fodido de verdade
Ultimamente meu ultimamente tem sido constante
Eu nunca soube ler nas entrelinhas da beleza
sempre entreguei minha alma completamente
abasteci a fogueira da minha misericórdia com minha confiança
e ardi nas chamas do desamor & traição
Em tudo isso tenho pensado constantemente
em tudo isso e ao olhar para mim mesmo refletido
agoniado pergunto:
Espelho espelho meu, o que há de errado comigo?
Espelho espelho meu, serei eu o ultimo romântico?
Espelho espelho meu, onde está você, espelho meu?



#Leia também, em "Comentários", o comentário do autor (eu mesmo) sobre o poema e seu significado.

sábado, 11 de agosto de 2007

O Sonho



à Fer

Caminho no tempo como quem caminha no sonho
Espero pelo belo e não admito engano
O sonho, o desatino da esperança me consome
Mas não, o sonho não me domina

Caminho por noite e estrela no tempo em que amo
A beleza é um devaneio constante
Quando tudo é cinza, apenas o verdadeiro permanece
O sonho me realiza

Caminho e não paro porque no sonho há estrada
Não me desencanto não desengano
No fundo há a certeza que me leva com constância
Mas não, o sonho não me domina

Caminho sobre o muro da coragem e do medo
Fecho meus olhos para lembrar o que já está escrito
O eterno, destino de quem insiste no sonho
O sonho me realiza

Caminho no sonho e busco o tempo que me complete
Sou vago incompleto vazio
Porém o tempo não mente, o sonho me completa
Mas não, o sonho não me domina
O sonho me realiza.

sábado, 7 de julho de 2007

Poema Acidental Sobre Um Sentimento Oculto



à Fernanda
(agradecimentos à Cíntia Emanuela - nasceu em uma carta para ela)


Apaixonante,
Amor que o vento traz e me leva junto
de olhos fechados
pétalas caem suavemente sobre mim
um toque delicado de dedos femininos em meu rosto
lábios
um toque macio em meus lábios,
apaixonante... apaixonado?
Don’t know why,
but I don’t need to know,
basta deixar levar e eu me permito ser levado
Amor de pétalas de rosas e anjos sorridentes
nuvens cor-de-rosa calor matinal felicidade de
olhos para olhos
lábios para lábios
loucura
apaixonante... apaixonado?
Don’t know why,
but it’s true.
A noite não é fria é divina
quando dois
eternos
tornam-se um
para caminhar sob as estrelas de um sonho
real.
Deixe vir, deixe-se levar
com o vento para o tempo
de olhos fechados em um toque de
vida
suavidade
eternidade
apaixonante... apaixonado?
Don’t know why,
but it came to me
apaixonante
apaixonado....
um começo
uma vida.

(imagem: créditos a Paulo Santana)

segunda-feira, 18 de junho de 2007

Poema Página de Diário em uma Quarta-feira treze

à Cíntia Emanuela



Quarta-feira treze de junho dois mil e sete sonhos e vinte anos de vida – nenhuma realização
Quarta-feira treze que não é sexta feira treze
Quarta-feira que não é de cinzas mas está cheia de cinzas das lágrimas de meus olhos inflamados
Quarta-feira escutando meu próprio coração esperando a madrugada de quinta com certeza de que a noite há muitos anos acabou
Quarta-feira noite e meus pensamentos cuspidos no papel dos pulsos abertos dos meus últimos quatro anos de procura e minha esperança perdida.

Querido diário minha mente já não vê mais as esferas
o barulho do bar do meu sexto inferno anual incomoda meus ouvidos de cristal
minha consciência já não é mais virgem
meus crimes foram punidos e nunca cometidos
vinte anos de prisão quatro anos na solitária
Querido diário hoje é quarta-feira e eu continuo domingando
domingando
domingando
porque minha vida toda é uma longa quarta-feira e
minhas quarta-feiras são domingo em minha semana de sete domingos
Querido diário quarta-feira como será o dia de amanhã?
Quarta-feira quinta-feira muda o nome e o domingo permanece domingo
O tempo me fere querido diário o tempo me esmaga com sua avalanche de dias meses anos vinte pedras em cada um de meus quatro últimos caminhos
O sonho que carrego é quase tão pesado quanto o fardo de um amor de anjo em minhas costas e dentro de mim rasgando ainda mais meu âmago já dilacerado pelos cacos de vidro do meu coração estilhaçado
Meus olhos querido diário por que há tanta chuva nas estradas de meus olhos?
Tudo é cinza como o céu de minha existência
existência
existência
Coração querido diário quarta feira treze quatro vinte anos ser ou não ser?
Ser não sendo a mim mesmo não ser não sendo nada
existência o que é existência querida caveira?
Meus últimos quatro anos não existiram
anjo de uma única asa foi o que vi no espelho todas as manhas quando acordei três horas da tarde – meus dias sempre amanhecendo quando o fim está próximo
Sou o anjo da noite em que nada acontece
nada acontece
nada acontece
a noite acabou querido diário
a noite acaba mas nunca começa
nunca recomeça querido maldito diário
mesmo assim minha vida toda é uma noite querido diário tédio sono
que me venha o sono e o sonho
sonhar é melhor do que viver insone
Coração querido diário quarta-feira de sonhos sem vida quatro anos insone e sonhando na quimera da incerteza e da culpa
Queria que alguém me trouxesse o sonho real e me ajudasse a dar o primeiro passo
o primeiro vôo e me levantasse na primeira queda na vida onde não é necessário sonhar
estou cansado de sonhar querido diário
a vida não é só sonho querido diário
traga minha realização querido diário
querido diário me chame de querido.

sexta-feira, 8 de junho de 2007

Minha Edelweiss

a alguém que eu espero

Quando eu

pela primeira vez

em teus olhos

olhar

sentirei no peito

uma nova estação

florescer os botões

que no coração

há muito

cultivo,

minha pele se inundará

com um chuviscar

de suor &

felicidade

e minhas mãos

cansadas calejadas mãos

se tornarão

a brisa que afagará

teu rosto,

meus braços serão

o banho de sol

que aquecerá

seu inverno,

meu corpo se fará

mil borboletas

para voar numa primavera

feita do teu corpo

e pousar em teus cabelos

e colorir seus dias

por toda sua vida.


mas por enquanto

quando ainda não te conheço

apenas espero

mesmo sem saber ao certo por quem espero

guardando comigo

um Amor

do tamanho de uma vida.


terça-feira, 5 de junho de 2007

Olhos Virgens

Olhos virgens dormem na noite
e desaparecem no frio escuro do silencio

suspiram no sonho do sonho da pureza

que não é infinita no infinito da luxúria

do mundo impuro

Olhos de criança que despertarão na velhice & no arrependimento

Olhos de sedenta inocência

morrendo a cada piscar cheio de devaneios

ansiando olhos de pecado & lágrimas de veneno

depois de cada olhar no vazio do amor

que ama e desama e destrói a ilusão.

Rosas intocadas no jardim etéreo aguardam o sacrifício

para agradar o amor ludibriar o amor cobrir o amor

com um mando de enlevos de vida & morte certeza única

Olhos de primavera tanto desejam o inverno

o inferno dos poucos maravilhosos minutos

os únicos minutos sem solidão

mas volta a solidão

e permanece uma duas três eternidades inteiras

e os olhos novamente

e mais intensamente

no desconsolo da incerteza & desesperança

que ocupa a existência a miséria a culpa

e esmaga o coração cheio de perguntas

– Onde estão as respostas? Onde estão as respostas? –

e o frio não responde a noite não responde Deus não responde

porque para a vida não há resposta

O sono não diz nada

nada diz o silencio o sonho

é só um sonho o nada

é sempre o nada –

resta apenas o vazio constante vazio

As horas dormem

olhos virgens dormem em meus olhos

e despertam obscenos

carregados de uma alegria tão artificial

quanto a felicidade

que nunca permanece
que nunca existe.

No despertar pupilas e pétalas de rosas despedaçadas

um olhar no passado: vê-se o escuro

e uma única porta para escapar

e estes olhos escaparam deixando para trás

no escuro

a juventude pueril dos sorrisos

para se entregar à luz que faz correr rios

dos olhos na solidão da ausência

de outros olhos.

domingo, 3 de junho de 2007

Auto-Compaixão

Aos poucos as estrelas vão despregando do céu
e caindo dentro do meu quarto
entrando pela janela
trazidas pelo vento;
A madrugada há muito sabe meu nome
as estrelas são minhas garotas
a lua é minha mãe
– nunca tive pai, continuo não tendo –
Patti Smith anjo de New York
canta para mim
berra para mim
do fundo do mais fundo poço do coração
– poesia –
anjo de New York minha amiga agora.
Solidão de fantasmas e anjos
em minha vida
meu espírito é o vazio
meu sentimento um templo
e em meu altar não existe tempo:
ninguém é esquecido ninguém é deixado para trás
Mas há escuridão no céu de meu dias
me fechando me sufocando me encobrindo,
minha eterna sombra não se move
não luta
estou contaminado envenenado acorrentado
à esta morte que nunca morre:
esconde meus sorrisos atrás de túmulos nunca visitados
e eu choro
Choro choro pelo que me esquece e
choro pelo meu próprio auto-esquecimento e
afundo minhas horas noturnas em auto-compaixão e
tento não ser egoísta mesmo não sendo Jesus Cristo e
não sendo perfeito não sendo.
A madrugada chora comigo as estrelas
caem do céu: minhas garotas são as lágrimas
que me afogam
que me matam e
me fazem viver nesta vida-morte
de estrela cadente.

quinta-feira, 31 de maio de 2007

Poetas Modernos & Mofados

Escreveremos em prosa
publicaremos livros já mofados
e morreremos poetas do apocalipse
nos alimentando do lixo
das latas de lixo
dos amores perdidos
e da nostalgia
dos fantasmas na
noite de Valium
& Vodca e poesia
barata -


A PALAVRA NÃO É POESIA
A VIDA É POESIA!

sexta-feira, 18 de maio de 2007

Afinal (página de diário de um coração embriagado)

Que porra eu sou afinal?
A merda de um escritor
sem livro
sem dinheiro
sem namorada
sem casa
sem amigos
Às vezes procuro em meu bolso e nem cigarros encontro

Que porra eu sou afinal?

Esses tempos patéticos
Tenho vivido esta vida beat sem orgulho
Leio até o dia se cansar de ler

então anoiteço, tudo escurece
e eu bebo pra iluminar minha alma

bebo porque a vida está embriagada
porque a bebida é a única que me entende

Depois volto a ler
escrevo alguma asneira sem sentido
mando tudo se foder
mas tudo antes me fode
tudo me fode...

Fumo o tempo todo
até o cigarro me fumar
até o cigarro apagar
até o livro acabar eu leio
e leio sem parar
até a noite clarear

então amanheço, tudo entristece
e eu durmo cheio de sonhos
não quero mais acordar
não quero mais...
mas quatro horas da tarde acordo
e tudo recomeça
Abro a geladeira de ressaca
apanho uma cerveja
bebo de novo
pra curar a ressaca
pra curar o coração
mas não
o coração não cura
esse amor solitário é crônico

então leio leio leio
e bebo bebo bebo
e fumo fumo fumo

sozinho

fodido

perdido

Afinal,
que porra eu sou afinal?

quinta-feira, 17 de maio de 2007

Letter to: Averbuck

Clarah, como tenho pensado em você ultimamente,
Clarah, e eu sei que você jamais pensou em mim
Mesmo quando deu-se conta da minha existência
Clarah, eu não existia.
Clarah, já não sei mais o que é existir neste país
quando sou apenas um fantasma assombrando os becos...
As luzes dos postes queimaram
A lua apagou
Caíram as estrelas
Parece que uso meus óculos escuros mesmo à noite
Na verdade são meus olhos que escureceram
Junto aos olhos dos assombrados.
Clarah, teus olhos também escureceram?
Você perdeu suas lentes de contato?
Caiu um cisco em teu olho?
Acho que estamos todos fodidos e bêbados e fodidos
Fodidos, Clarah, fodidos!
Eu já não leio mais o que você escreve,
suas palavras é que arrombam minha alma e nela afundam.
Clarah, quase te chamo de Camila
que é um nome bonito e começa com “C”
mas prefiro o outro que termina com “h”
Clarah, eu adoro teu nome, Clarah
Cultivo uma paixão platônica pelo “h” do teu nome
Clarah, mesmo com todos insistindo que teu “h” é a última letra,
Que é inútil,
Pra mim é a primeira letra, Hclara.
Há tempos venho querendo te perguntar como andam seus gatos, mas sempre me falta coragem
Você nunca me escuta,
Você me escuta menos do que Allen Ginsberg morto
Mas eu te escuto, Clarah, mesmo quando você sussurra,
Até mesmo quando você não diz nada.
Clarah, tenho vinte anos e já tive mais de vinte gatos
A maioria morreu, outros me abandonaram.
Ainda ouço seus miados nas madrugadas de minhas lembranças
Ainda lembro seus nomes: Poncho, Balboa, Osama, Morgana, Mutraka, Bisonho...
Tantos nomes e nenhum com “h” no final
Teve também os três irmãos Trabuco, Sabugo e Nabuco – este último morreu atropelado, os outros dois me deixaram sozinho.
No final, muitos me deixam sozinho e cheio de saudade,
Mesmo assim minha vida continua sendo cheia de gatos
Clarah, estou à procura do gato eterno,
Eterna tem sido minha vida de gato.
Estou tentando parecer interessante,
Estou tentando encontrar um assunto que te agrade, Clarah
Não sei se você me compreende
Será que estou sendo claro, Clarah?
Meu computador está obcecado pelo seu blog
Já não sei mais o que fazer
Às vezes digito “google” na barra de endereços e a página que abre é seu blog
Seu blog se tornou um vírus
Meu computador e eu estamos contaminados.
Clarah, nem sei por que estou te escrevendo,
Tenho a impressão de que você não está me lendo.
Escrevo mesmo assim,
Já me acostumei a ler eu mesmo minhas próprias cartas e poemas.
Clarah, ainda me lembro a primeira vez que encontrei você: era uma tarde fria de sábado em uma livraria de São Paulo, estava caminhando entre as estantes de livros e de repente todos os livros se viraram areia e a livraria tornou-se um deserto de letras e eu estava sozinho e perdido e lá estava na minha frente aquela florzinha branca, apenas aquela florzinha branca tatuada nas pétalas com a inscrição “Vida de Gato”
Ao tocar a flor o deserto me pareceu familiar e hoje sei que realmente era.
Levei a florzinha para casa e a cultivei junto às outras flores do meu jardim poético
entre meus canteiros de Jack Kerouac, William Burroughs, John Fante, Paulo Leminski, Charles Bukowski, Allen Ginsberg...
Clarah, aquela é uma flor que eu guardo só pra mim,
Não dou não vendo não empresto não alugo
Clarah, você está ajudando a fazer de mim um egoísta.
A verdade é que as flores do meu jardim ultimamente
têm sido minha única companhia nas
tardes de Domingo
Clarah essa é a sensação que tenho quando encaro as paredes do meu quarto e elas nada dizem
Quando encontro minha cama vazia antes de dormir
Quando meus discos de rock são os únicos amigos que dizem coisas interessantes Quando escrevo longas cartas a ninguém em tempos de internet e as rasgo em seguida por não ter a quem enviar
Mas esta carta é para você, Clarah,
Mesmo que você não queira recebê-la, Clarah,
Esta carta é para você!
Clarah, como tenho pensado ultimamente
Clarah, não faço nada além de pensar ultimamente
Clarah, te escrevi porque descobri que meus pensamentos não eram ouvidos
Agora te envio esta carta para que você não leia.